A vó da Cris

Último dia (in)útil do ano, garoa fina. No último ônibus de volta pra casa, reconheci um sorriso. Era o mesmo que esperava a Cris, na porta da escola, em 1995 - por aí.

A Cris nem era tão minha amiga, mas morávamos perto e acabávamos voltando juntas. Ela com a avó,  eu com a Ivanete, minha babá-irmã postiça. Aquela jovialidade era a mesma da minha avó.

Desci do ônibus um ponto antes, propositalmente. A vó da Cris estava com muitas sacolas e, ah, não custava ajudar. Eu nem ia acordar cedo no dia seguinte.

_Posso ajudar a senhora?
_Ah, sim, claro.
Silêncio.
_Esses motoristas são bonzinhos, né? Sempre me ajudam a subir no ônibus.
_É, são sim.

_Obrigada, moça!
_Magina. Ah, a senhora mora aqui. A Cris é sua neta?
_Sim sim. Você a conhece?
_Estudamos juntas. Ah, preciso ir. Boa noite.
_Boa noite, Deus abençoe.

Voltei pra casa com aquele sorriso na cabeça. Tudo mudou, menos o sorriso. Queria ter dito isso. Queria dizer que também gostava quando ela fazia a Cris dividir os doces comigo. Queria dizer também que eu adorava aquela época, e que fiquei feliz em vê-la com o mesmo sorriso.

Minha avó, no fim da vida, não falava mais. Só sorria.

Queria dizer que sinto saudade da minha avó, até hoje. Do macarrão e do sorriso.

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2 Comentários

  1. Não era a minha vó? Hehehe…

    Que lindo, Lidi! Quero ser uma velhinha assim!

    lidifaria Reply:

    Ela é bem fofa mesmo, e vive presenteando os motoristas e cobradores, haha.

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